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Caderno de Campo
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Crédito rural safra a safra: o que o dinheiro contratado diz sobre a sua revenda

Treze safras de crédito rural, descontada a inflação: o pico de 2023/24, a queda de 26% desde então e o que mudou entre finalidades e regiões.

Por Equipe de Pesquisa Nexus 8 min de leitura

Ilustração em traço minimalista: treze silos de contorno em grafite em alturas diferentes, formando uma subida e uma descida, com o mais alto preenchido em amarelo.

Plano Safra é anúncio. Crédito contratado é fato. O Banco Central publica, mês a mês, quanto foi de fato contratado em crédito rural, por finalidade e por estado. Este texto usa esse número em 13 safras completas (de julho a junho), da 2013/14 à 2025/26, e desconta a inflação.

A conclusão sem filtro: o crédito rural contratado bateu o pico em 2023/24 e caiu duas safras seguidas. Em reais de junho de 2026, são 26% a menos na soma de custeio, investimento e comercialização. A queda está sobretudo no dinheiro que financia insumo e máquina: 81% da perda, em reais, está em custeio e investimento. Há indício de que parte do financiamento migrou para um título que esta série não enxerga, a CPR, mas é hipótese: o dado do Banco Central, sozinho, não prova isso, e o MAPA atribui o menor uso do crédito sobretudo ao custo do dinheiro.

O que esta série mede, e o que não mede

Os dados vêm da Matriz de Dados do Crédito Rural (MDCR), que reúne as operações registradas no SICOR, sistema do Banco Central. Usamos o valor contratado, pela data de emissão da cédula, incluindo Pronaf e agricultura empresarial. Somamos as três finalidades que existem nas 13 safras: custeio, investimento e comercialização. A industrialização só aparece na base a partir de julho de 2016, então fica de fora do total e é tratada à parte.

Dois limites importam desde já. O primeiro: a CPR (Cédula de Produto Rural), título de mercado, não entra na série do MDCR usada aqui. O segundo: crédito contratado não é venda de insumo. Mostra como o produtor financia a safra, não quanto ele comprou.

Treze safras: o pico, o fundo e a queda

O que o dado mostra

Em valores nominais, o crédito contratado passou de R$ 154,5 bilhões em 2013/14 para R$ 390,2 bilhões em 2023/24, o pico, e caiu para R$ 317,7 bilhões em 2025/26. Em valores reais, a preços de junho de 2026 e deflacionados mês a mês pelo IPCA, a história é outra: R$ 308,6 bi em 2013/14, fundo de R$ 213,8 bi em 2015/16, pico de R$ 440,7 bi em 2023/24 e R$ 326,4 bi em 2025/26.

Entre o fundo e o pico, o valor real mais que dobrou (2,06 vezes). Desde o pico, caiu 12,0% em 2024/25 e mais 15,9% em 2025/26, o que dá 26,0% acumulados (18,6% em valores nominais). A safra 2025/26 contratou, em termos reais, só 0,8% a mais que a 2020/21 e 5,8% a mais que a 2013/14. Em valores nominais, a mesma comparação parece muito melhor: +35,2% e +105,6%.

Crédito rural contratado por safra, 2013/14 a 2025/26

Custeio + investimento + comercialização, em R$ bilhões. Nominal e a preços de junho de 2026 (IPCA).

010020030040050025/2624/2523/2422/2321/2220/2119/2018/1917/1816/1715/1614/1513/14

Fonte: Banco Central do Brasil, MDCR/SICOR. Cálculo Nexus (deflator: IPCA/IBGE).
Ver os dados em tabela
Crédito rural contratado por safra, 2013/14 a 2025/26 (R$ bilhões)
SafraNominal (R$ bilhões)Real a preços de jun/2026 (R$ bilhões)
13/14R$ 154,5 bilhõesR$ 308,6 bilhões
14/15R$ 156,1 bilhõesR$ 291,4 bilhões
15/16R$ 124,7 bilhõesR$ 213,8 bilhões
16/17R$ 152,6 bilhõesR$ 244,1 bilhões
17/18R$ 163,4 bilhõesR$ 253,9 bilhões
18/19R$ 166,5 bilhõesR$ 248,6 bilhões
19/20R$ 179,4 bilhõesR$ 259,9 bilhões
20/21R$ 235,1 bilhõesR$ 323,6 bilhões
21/22R$ 296,8 bilhõesR$ 369,8 bilhões
22/23R$ 345,0 bilhõesR$ 406,7 bilhões
23/24R$ 390,2 bilhõesR$ 440,7 bilhões
24/25R$ 360,6 bilhõesR$ 387,9 bilhões
25/26R$ 317,7 bilhõesR$ 326,4 bilhões

Leitura da Nexus

O valor nominal esconde a perda. Quem planejou 2025/26 olhando o número em reais correntes de 2023/24 está calibrado para um mercado que, em dinheiro de hoje, ficou um quarto menor. Além disso, o crédito se comporta como torneira, não como base: o pico foi o dobro do fundo em oito safras. Revenda que trata o ano forte como normal corre o risco de errar a meta do ano seguinte.

Custeio e investimento: onde a queda está

O que o dado mostra

Em valores reais, entre 2023/24 e 2025/26 o custeio caiu 25,1% (de R$ 256,1 bi para R$ 191,7 bi), o investimento 22,9% (de R$ 123,6 bi para R$ 95,2 bi) e a comercialização 35,5% (de R$ 61,1 bi para R$ 39,4 bi). O custeio segue como a maior fatia, com 58,7% do total em 2025/26.

A contagem de contratos conta uma história a mais. Os contratos de custeio caíram 24,5% (de 1.038.547 para 784.250). Os de investimento subiram 33,9% (de 1.314.089 para 1.758.931), e o valor médio por contrato de investimento, em reais de junho de 2026, caiu de R$ 94,1 mil para R$ 54,1 mil. O dado não explica por quê, e a média mistura agricultura familiar e empresarial.

A industrialização, que a base registra desde julho de 2016, foi a exceção: R$ 31,8 bi em 2023/24 e R$ 35,3 bi em 2025/26 em valores nominais (+10,9%), estável em termos reais (+0,6%).

Crédito rural contratado por finalidade, em valores reais

R$ bilhões a preços de junho de 2026 (IPCA). A industrialização, registrada só desde jul/2016, fica de fora.

010020030040050013/1414/1515/1616/1717/1818/1919/2020/2121/2222/2323/2424/2525/26

Fonte: Banco Central do Brasil, MDCR/SICOR. Cálculo Nexus (deflator: IPCA/IBGE).
Ver os dados em tabela
Crédito rural contratado por finalidade, em valores reais (R$ bilhões)
SafraCusteioInvestimentoComercialização
13/14R$ 163,5 bilhõesR$ 98,5 bilhõesR$ 46,6 bilhões
14/15R$ 152,7 bilhõesR$ 95,8 bilhõesR$ 43,0 bilhões
15/16R$ 135,7 bilhõesR$ 47,2 bilhõesR$ 30,9 bilhões
16/17R$ 150,5 bilhõesR$ 56,3 bilhõesR$ 37,2 bilhões
17/18R$ 142,7 bilhõesR$ 64,4 bilhõesR$ 46,9 bilhões
18/19R$ 146,7 bilhõesR$ 63,5 bilhõesR$ 38,5 bilhões
19/20R$ 155,0 bilhõesR$ 71,7 bilhõesR$ 33,2 bilhões
20/21R$ 185,7 bilhõesR$ 103,4 bilhõesR$ 34,5 bilhões
21/22R$ 208,8 bilhõesR$ 116,4 bilhõesR$ 44,6 bilhões
22/23R$ 247,4 bilhõesR$ 117,4 bilhõesR$ 41,8 bilhões
23/24R$ 256,1 bilhõesR$ 123,6 bilhõesR$ 61,1 bilhões
24/25R$ 224,5 bilhõesR$ 110,3 bilhõesR$ 53,1 bilhões
25/26R$ 191,7 bilhõesR$ 95,2 bilhõesR$ 39,4 bilhões

Leitura da Nexus

Custeio financia o custo da lavoura, e é nele que entram insumos como semente, fertilizante e defensivo. É a rubrica mais ligada ao balcão da revenda, e foi a que mais perdeu em reais (R$ 64,3 bi a menos). O investimento, ligado a máquina e implemento, perdeu R$ 28,4 bi.

Por região

O que o dado mostra

A queda real de 2025/26 contra 2023/24 foi de 37,2% no Centro-Oeste, 31,3% no Norte, 27,1% no Nordeste, 19,0% no Sudeste e 18,7% no Sul. O Centro-Oeste respondeu sozinho por 39,8% de toda a perda (R$ 45,5 bi de R$ 114,4 bi). Sua fatia no total nacional foi de 27,8% para 23,5%, enquanto o Sul subiu de 28,3% para 31,0%. Minas Gerais passou de R$ 57,0 bi para R$ 45,4 bi em valores reais (−20,4%) e responde por 13,9% do valor nacional contratado em 2025/26.

Queda do crédito rural contratado por região, 2025/26 contra 2023/24

Queda real (IPCA), em %. Custeio + investimento + comercialização.

010203040Centro-Oeste37,2%Norte31,3%Nordeste27,1%Sudeste19,0%Sul18,7%Brasil26,0%

Fonte: Banco Central do Brasil, MDCR/SICOR. Cálculo Nexus (deflator: IPCA/IBGE).
Ver os dados em tabela
Queda do crédito rural contratado por região, 2025/26 contra 2023/24 (%)
RegiãoQueda real 2025/26 contra 2023/24 (%)
Centro-Oeste37,2%
Norte31,3%
Nordeste27,1%
Sudeste19,0%
Sul18,7%
Brasil26,0%

Leitura da Nexus

A região que mais somou valor de produção na década, o Centro-Oeste, é a que mais perdeu crédito oficial. O sinal é compatível com mudança de fonte de financiamento, e não só de demanda, mas o dado do Banco Central, sozinho, não separa as duas coisas. Há um indício de contexto: no boletim do MAPA, o contrato médio do Centro-Oeste (R$ 1,19 milhão) é mais que o dobro do Sul (R$ 552 mil), de modo que o produtor médio de lá tem escala para outros instrumentos, como a CPR. É hipótese, não conclusão.

Para onde pode ter ido o financiamento

O que o dado mostra

O Boletim de Desempenho do MAPA registra, para a safra fechada de 2025/26 na agricultura empresarial (sem Pronaf), R$ 477,2 bi em crédito utilizado, dos quais R$ 205,2 bi em CPR (43,0%). Esse boletim não compara com safras anteriores, por causa das regras do período eleitoral. Um boletim anterior do ministério, noticiado pelo Agrolink em abril de 2026, compara julho de 2025 a março de 2026 com o mesmo período da safra anterior: total de R$ 404 bi (+10%), CPR de R$ 183,1 bi (+38%), custeio de R$ 120 bi (−11%) e investimento de R$ 45,5 bi (−16%). A CPR é emitida, segundo o ministério, pelo produtor em favor de instituições financeiras. Tirando a CPR, o total caiu cerca de 6% (até fevereiro, cerca de 10%; cálculo nosso, sobre números arredondados). O ministério soma a CPR ao custeio, por considerá-la um instrumento usado sobretudo para financiar a safra, e chega a R$ 303,1 bi nesse recorte, 13% a mais.

Sobre o motivo, o MAPA aponta o custo do crédito. Na avaliação do ministério, o uso dos programas de investimento abaixo do programado reflete sobretudo uma demanda contida pelos juros altos, e não falta de recursos. Ele cita ainda inadimplência, custos de produção e bancos mais seletivos. Nos recursos equalizáveis, foram concedidos R$ 53,6 bi dos R$ 91,4 bi programados (58,6%).

Leitura da Nexus

O dado sugere, mas não prova, que parte do financiamento do custeio migrou do crédito rural clássico para a CPR: no recorte do ministério, o total só cresceu por causa dela. Uma hipótese concorrente, que o próprio MAPA apresenta, é a de menor demanda por crédito por causa dos juros altos. As duas não se excluem: o produtor pode ter tomado menos crédito e, ao mesmo tempo, financiado parte da safra por CPR. Para a conversa de balcão, a condição de pagamento e o título que financia a compra passam a pesar tanto quanto o preço. Não temos aqui uma série longa de CPR por safra, então não dá para dizer se a mudança é permanente.

O que fazer com isso na sua revenda ou no seu serviço

Três ajustes de conta. Primeiro, troque a régua: a meta de 2026/27 construída em cima de 2023/24 pode estar acima do que o crédito contratado sustenta hoje. Segundo, olhe a sua região, não a média: a queda foi de 19% no Sul e de 37% no Centro-Oeste. Terceiro, antes da cotação, descubra como o seu cliente vai financiar a safra: crédito rural, CPR ou prazo. Quem pergunta antes entra na decisão antes. É a diferença entre receber um pedido e disputar uma comparação de preço.

Se você quer saber em que ponto da decisão do produtor a sua empresa aparece hoje, Faça o diagnóstico de 3 perguntas.

Fontes

  1. Banco Central do Brasil, Matriz de Dados do Crédito Rural (MDCR/SICOR), API Olinda, tabela RegiaoUF: dadosabertos.bcb.gov.br (abre em nova aba). Acesso em 03/10/2026.
  2. IBGE, SIDRA, tabela 1737, IPCA número-índice (variável 2266), usado como deflator: apisidra.ibge.gov.br (abre em nova aba). Acesso em 03/10/2026.
  3. MAPA, Boletim de Desempenho, Plano Safra 2025/2026, jul/2025 a jun/2026 (dados extraídos em 03/07/2026): boletim em PDF (abre em nova aba). Acesso em 03/10/2026.
  4. Agrolink, matéria sobre o Boletim do Crédito Rural do MAPA de julho/2025 a março/2026, publicada em 10/04/2026. Fonte secundária; a página original do MAPA exige autenticação: Crédito rural empresarial soma R$ 404 bilhões (abre em nova aba). Acesso em 03/10/2026.
  5. Agrolink, matéria sobre o boletim do MAPA de julho/2025 a fevereiro/2026, publicada em 09/03/2026 (fonte secundária): Crédito rural cresce 7% no Plano Safra 2025/2026 (abre em nova aba). Acesso em 03/10/2026.
  6. Grupo Amanhã, com dados da Ocepar/Fator Agro (15/04/2026), totais contratados das safras 2023/24 e 2024/25 (conferência): Valor contratado em crédito rural na safra 2025/26 é de R$ 257,5 bilhões (abre em nova aba). Acesso em 03/10/2026.
  7. Banco Central do Brasil, Boletim do Crédito Rural e do Proagro, março/2025 (conferência): boletim em PDF (abre em nova aba). Acesso em 03/10/2026.

Método e limitações

  • Contratado, por safra. Somamos VlCusteio, VlInvestimento e VlComercializacao do SICOR por mês de emissão, de julho a junho. A safra 2012/13 fica de fora, porque a base começa em janeiro de 2013. A industrialização não está nos totais porque só existe na base desde julho de 2016.
  • Valores reais. Cada mês foi deflacionado pelo IPCA (número-índice, dez/1993 = 100) para junho de 2026 (7.652,37). IPCA é inflação ao consumidor, não de insumos: outro deflator mudaria o nível das séries. Não o testamos.
  • Conferência. Para jul/2024 a mar/2025, nossa soma das quatro finalidades é R$ 285,9 bi, contra R$ 278,1 bi "concedidos" no boletim do Banco Central (diferença de 2,8%), e as safras 2023/24 e 2024/25 (com industrialização: R$ 422,0 bi e R$ 383,3 bi) ficam 1,6% e 1,4% acima dos totais citados pela Ocepar (R$ 415,4 bi e R$ 377,9 bi). A 2025/26 pode ser revisada para cima, pelo registro tardio de contratos: o total de jul/2025 a mar/2026 (quatro finalidades) era R$ 257,5 bi na Ocepar em abril/2026 e é R$ 267,9 bi hoje, 4% a mais. Somando a industrialização, a queda de 2023/24 a 2025/26 é de 24,0% em valores reais e 16,4% em nominais.
  • O que não está aqui. A CPR e os demais títulos de mercado ficam de fora da série do MDCR usada aqui. O boletim do MAPA é outro recorte (agricultura empresarial, sem Pronaf, valor "concedido") e não é comparável com a nossa série. A causa da queda não aparece nos dados: citamos a leitura do MAPA, não a nossa.
  • Cálculos. Variações, participações e valores médios são da Nexus, com uma casa decimal. Cada número do texto consta da tabela de conferência.

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